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Entre
as Iabás, Iemanjá é certamente a mais popular, festejada
em todo Brasil como a rainha do mar, homenageada nas praias da Bahia no dia
02 de fevereiro, em São Paulo no dia 08 de dezembro e no Rio de Janeiro
e em Natal na passagem do ano. Flores, perfume, jóias, bijuterias
são algumas das oferendas que recebe nessas ocasiões. Muitos,
porém, não vêem Iemanjá como uma divindade de
origem africana, sendo comumente representada pela imagem de uma mulher branca,
vestido de azul, com longos cabelos negros, muito distante da Mãe
Africana de Seios Chorosos que realmente é.
Iemanjá é considerada a mãe da humanidade, grande provedora que proporciona o sustento a todos os seus filhos. Na África, dizem que Iemanjá é filha de Olokun, a riquíssima deusa do oceano, dona de todas as riquezas do mar. Iemanjá foi esposa de Orunmilá. Senhor dos oráculos, e de Olofin, o poderoso rei de Ifé, com quem teve dez filhos.
Cansada de sua permanência em Ifé e da convivência com o marido, Iemanjá fugiu do palácio em direção ao entardecer, a oeste, para as terras de Abeokutá. Sua mãe Olokun lhe havia presenteado, certa vez, com uma garrafa mágica, e disse que em caso de perigo era só quebra – la e o mar viria para socorrer Iemanjá.
Inconformado por perder sua esposa, Olofin ordenou ao exército de Ifé que fosse atrás dela. Os soldados a alcançaram, mas ela se recusou a voltar para Ifé e, ao ver – se sem saída, jogou a garrafa contra o chão, quebrando - a. Formou – se um fio que, correndo em direção ao oceano levou Iemanjá para morada de sua mãe Olokun.
Iemanjá também foi casada com Oxalá, a união claramente representada pela fusão do céu e do mar no horizonte. É considerada a mãe de todos os Orixás, é a manifestação da procriação, da restauração da emoções e símbolo da fecundidade. Seu nome deriva da expressão YEYÉ-OMO-EJÁ, significa A mãe dos Filhos Peixes.
CONHECENDO MAIS DE YEMANJA
"Yemanjá, cujo o nome deriva de Yeye oman ejá, "Mãe cujos filhos são peixes", é o Orixá dos Egbás, uma nação yorubá estabelecida outrora na região de Ibadan, onde existe ainda o rio Yemanjá. As guerras entre nações yorubáslevaram os Egbás a emigrar, em direção oeste, para Abeokutá, no inicio do século XIX. Evidentemente, não lhes foi possível carregar o rio, mas, em contrapartida, transportaram consigo objetos os sagrados, suportes do Axé da divindade, e o rio Ogun, que atravessa a região, tornou-se a partir de então, a nova morada de Yemanjá.
Este
rio Ogun, entretanto, não deve ser confundido com Ogun, o deus
do ferro e dos ferreiros, contrariamente à opinião de numerosos
autores que escrevem sobre o assunto no século passado. Estes mesmo
autores publicaram, a partir de 1884, copiando-se uns aos outros, uma série
de lendas escabrosas e extravagantes que fizeram a delícia dos " meios
eruditos", mas que eram completamente desconhecidos nos meios tradicionais.
O templo principal de Yemanjá fica em Ibará, bairro da cidade
de Abeokutá. Os fiéis desta divindade vão procurar,
todos os anos, a água sagrada para levar os Axés, suportes
de seu poder, não no rio Ogun, mas na fonte de um de seus afluentes,
chamado Lakaxá. Esta água, recolhida em jarras, é trazida
em procissão para seu templo.
Yemanjá seria a filha de Olokun, deus ( em Bénin e em Lagos)
ou deusa ( em Ifé) do mar. Em certa lenda, ela aparece casada pela
primeira vez com Orunmila, senhor das adivinhações, depois
com Olofin-Ododúa, Rei de Ifé, com o qual teve dez filhos cujas
atividades bastante diversificadas e cujos nome enigmáticos parecem
corresponder a outros tantos Orixás. Dois dentre eles são facilmente
identificados: "O arco-iris-que-desloca-com-a-chuva-e-guarda-o-fogo-nos-seus-punhos" e "O
trovão-que-se-desloca-com-a-chuva-e-revela-seus-segredos". Estas
denominações representam, respectivamente, Oxumarê e
Xangô.
Yemanjá, cansada de sua permanência em Ifé, foge mais
tarde em ~direção ao oeste. Olokun que havia dado, autrora,
por medida de precaução, uma garrafa contendo um preparado,
pois "não-se-sabe-jamais-o-que-pode-acontecer-amanhã";
recomendara-lhe que a quebrasse no chão em caso de perigo. E assim,
Yemanjá foi se instalar na "Noite-da-Terra", à este,
em Abeokutá, "ilusão à migração dos
Egbás". Olofin-Ododúa, rei de Ifé, lançou
seu exercito em procura de Yemanjá. Esta, cercada, em vez de se deixar
prender e ser conduzida de volta a Ifé, quebrou a garrafa, segundo
as instruções recebidas. Um rio criou-se na mesma hora, levando-a
para Okun, o mar, lugar de residência de Olokun.
As imagens que representam Yemanjá dão-lhe o aspecto de uma matrona, com seios volumosos, símbolo de maternidade fecunda e nutritiva. Esta particularidade de possuir seios um pouco mais que majestosos - e somente um deles, segundo outra lenda - foi a origem de desentendimentos com seu marido, embora ela já o houvesse, honestamente, prevenido antes do casamento, dizendo-lhe que não toleraria a mínima alusão desagradável ou irônica a esse respeito. Tudo ia muito bem e o casal viva feliz. Uma noite, porém, quando o marido havia se embriagado com vinho de palma, não mais podendo controlar as suas palavras, fez comentário sobre seu seio volumoso. Tomada de cólera, Yemanjá bateu com o pé no chão e transformou-se num rio a fim de voltar para Olokun, como na lenda precedente.
As saudações a Yemanjá são
bastante interessantes:
"
Rainha das águas que vem da casa de Olokun.
Ela usa, no mercado, um vestido de contas.
Ela espera, orgulhosamente sentada, diante do rei.
Rainha que vive nas profundezas das águas.
Nossa Mãe de seios chorosos".
Yemanjá recebe sacrifícios de carneiro e oferendas de comidas à base
de milho branco, azeite, sal e cebolas.
Ela se apresenta sob diversos nomes, ligados, como no caso de Oxun, aos diversos
lugares profundos, Ibús, do rio Ogun.
No Brasil, como em Cuba, dá-se sete nomes a Yemanjá e se conta:
que de Olokun, o mar, nasceram;
Yemowô, que na África é mulher de Oxalá;
Yamassê, mãe de Xangô;
Yewá ( Euá), rio que na África corre paralelo ao rio
Ogun e que freqüentemente é confundido com ele;
Olossá, a lagoa na qual deságua o rio Ogun;
Yemanjá Yogunté, casada com Ogun Alagbedé. "É -
diz Lydia Cabrera, falando de Yemanjá em Cuba - uma amazônia
terrível, que traz pendurada na cintura o facão e os outros
instrumentos de ferro de Ogun. Ela é severa, rancorosa e violenta.
Detesta pato e adora carneiro";
Yemanjá Assaba, ela manca e está sempre fiando algodão.
Lydia Cabrera acrescenta: "Ela tem um olhar insustentável, É muito
orgulhosa, e somente escuta dando as costas ou ficando ligeiramente de perfil. É perigosa
e voluntariosa. Usa uma corrente de prata amarrada no tornozelo. Foi mulher
de Orumilá e este aceitou seus conselhos com respeito";
Yemanjá Assessú, muito voluntariosa e respeitável. Lydia
Cabrera especifica que "ela vive em água agitada. É muito
séria. Gosta de comer pato. Muito lenta a escutar os pedidos de deus
fiéis. Esquece o que lhe pedem e se põe a contar minuciosamente
as penas do prato que lhe deram como oferenda. Se acontece se enganar nos
seus cálculos, ela recomeça e esta operação se
prolonga indefinidamente".
Na Bahia,
os adeptos de Yemanjá usam colares de contas de vidro transparentes
e vestem-se, de preferência, de azul-claro. seu Axé é constituído
por pedras marinhas e conchas, guardadas numa sopeira de porcelana azul.
Seus Iaôs durante o Xirê dos orixás, trazem um leque de
metal branco nas mãos levadas alternadamente sobre a testa a nuca,
cujo simbolismo não me foi possível perceber. Gisèle
Cossard pensa que Yemanjá, por este gesto, procura chamar a atenção
para a beleza de seu penteado de rainha.
Saúda-se Yemanjá gritando-se Odoyá. Sábado é o
dia da semana que lhe é consagrado, juntamente com outras divindades
femininas, as Ayabas, as rainhas.
Na Bahia,
Yemanjá é sincretizada com Nossa Senhora da Imaculada
Conceição, festejada no dia 8 de dezembro. Ela é mais
ligada às águas salgadas do mar que às águas
doces dos rios, que é domínio de Oxun. Curiosamente, porém,
as pessoas fazem abstração, na Bahia, do sincretismo que liga
o Oxun a Nossa Senhora das Candeias, festejada no dia 2 de fevereiro, pois é nessa
data que se organiza um solene presente para Yemanjá, o que mostra
que o sincretismo entre os deuses africanos e os santos da igreja católica
não é de uma rigidez absoluta.
Esta festa do dia 2 de fevereiro é uma das mais populares do ano,
atraindo à praia do Rio Vermelho uma multidão imensa de fiéis
e de admiradores da Mãe das Águas, freqüentemente rpresentada
sob a forma latinizada de uma sereia, com longos cabelos soltos ao vento.
Chamam-na, também, Dona Janaína, a Princesa ou a Rainha do
Mar.
Neste dia (2 de fevereiro), bem cedo pela manhã, longas filas de pessoas
se formam diante da pequena casa construída rapidamente, na véspera,
a fim d obrigar as grandes cestas destinadas a receber os donativos e as
oferendas par Yemanjá.
Durante todo este dia, forma-se um lento desfile de pessoas de todas as origens
e de todos os meios sociais, trazendo ramos de flores frescas ou artificiais,
pratos de comida feitos com carinho, frascos de perfumes, sabonetes embrulhados
em papel transparente, bonecas, cortes de tecidos e outros presentes agradáveis
a uma mulher bonita e vaidosa. Cartas e súplicas não faltam,
nem presentes em dinheiro, assim como colares e pulseiras. Em algumas horas
as cestas já estão cheias e substituídas por outras.
Ao final da tarde, os ramos de flores são colocados em cima das cestas,
transformando-as, assim, numas 30 braçadas de flores, imensas. O entusiasmo
da multidão chega ao seu máximo.
Não se escutam senão gritos alegres, saudações a Yemanjá, votos de prosperidade futura. Uma parte da assistência embarca a bordo de veleiros, barcos e lanchas a motor. A flotilha se dirige para o alto mar, onde as cestas são depositadas sobre as ondas. Segundo a tradição, para que as oferendas sejam aceitas, elas devem mergulhar até o fundo, sinal de aprovação de Yemanjá. se elas forem rejeitadas e, conseqüentemente, devolvidas à praia, é sinal de recusa para grande tristeza e decepção dos Admiradores de Yemanjá.
Tomo emprestada a descrição do arquétipo de Yemanjá de Lydia Cabrera, ela mesma filha de Yemanjá, certamente a mais competente de todas aquelas que me foi dado o prazer de conhecer: "As filhas de Yemanjá são voluntariosas, fortes, rigorosas, protetoras, altivas e, algumas vezes, impetuosas e arrogantes; põem à prova as amizades que lhe são devotadas, custam muito a perdoar uma ofensa e, se a perdoam, não a esquecem jamais. Preocupam-se com os outros, são maternais e sérias. Sem possuírem a vaidade de Oxun, gostam do luxo, das fazendas azuis e vistosas, das jóias caras. Têm tendência à vida suntuosa mesmo se as possibilidades do cotidiano não lhes permitem um tal fausto".
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